quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Acrobata da Dor


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.


(J. Cruz e Sousa)

Talvez


Talvez na noite inquieta o teu passo sereno
A tua voz chegada do princípio de tudo
As tuas mãos erguidas num aceno
Os teus lábios de quem vai beijar o mundo.

Talvez na manhã clara o teu corpo de fogo
Os teus cabelos leque de todas as cores
Os teus dedos correndo as ruas do meu corpo
O teu odor a mar por onde quer que fores.

Talvez somente a luz do teu olhar
O sol que deixas sempre em teu lugar.


(Torquato da Luz)