segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Canção sem Importância


Sabe? O que tive por você
Não foi amor, foi diferente:
Amor é o mal de toda gente
e o bem que eu tive foi você.

Não. O que eu tive por você
Não foi o amor que é deste mundo,
Pois se você era "do outro mundo",
De um mundo assim: eu e você.

Ora, o que eu tive por você
Foi justamente o que eu queria,
E que eu sonhava, e que eu perdia,
Mas que eu não tive de você.

Ouça: o que eu tive por você
Não tem a mínima importância.
Foi pouco: uma insignificância...
Foi tudo aquilo que você
Pensa que eu tive por você...

(Guilherme de Almeida)

Aviso aos Náufragos


Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?


(Paulo Leminski)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fresta


Vaga estrela, fria vigia
Através da porta aberta
A vida desliza vazia

Velas, remos, cordas e
Uma dúvida resta apenas
Quem viu passar a alegria?

(Randi Maldonado)

Ei! Sélim


Ei Sélim, por que você não pode estar conosco esta noite?
Ei Sélim, estava assustado, Sélim, o mar é tão grande!
O que nos espera onde estamos indo Sélim?
O que faz o lugar para onde vamos tão especial?
Montanhas ou ravinas, policiais ou soldados,
Nunca olhamos para trás.
Tudo o que posso ver é o mar, agora, o mar sem fim.
Esta noite eu vi minha mãe
Em frente a porta de nossa casa, em lágrimas.
Era Natal e os sinos tocavam
A neve caia na montanha
Você só esta aqui para contar de novo para nós
Sobre todos aqueles portos,
Marseille ou Napoles,
Deste vasto mundo
Ei Sélim, conta, conta pra nós.
Fale deste vasto mundo.
Ei Sélim, conta, conta pra nós...
Ei Sélim...
Ei Sélim...


Texto retirado da impactante cena de Mia Aioniotita Kai Mia Mera (Eternidade e um dia), filme que possuí uma trilha sonora tocante, dirigido por Theodoros Angelopoulos.
Sinceramente, isto me emociona.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gacela Del Amor Iprevisto


Nadie comprendía el purfume
de la oscura magnolia de tu vientre.
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.

Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.

Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de marfil que dicen siempre,

siempre, siempre: jardin de mi agonia,
tu cuerpo fugitivo para siempre,
la sangre de tus venas en mi boca,
tu boca ya sin luz para mi muerte.


(Frederico Garcia Lorca)

O Espião que Saiu do Frio


Segue o início do capítulo VIII do livro O Espião que Saiu do Frio de John Le Carré.

"A manhã estava fria e a leve neblina úmida e cinzenta entrava pela pele. O aeroporto recordou-lhe a guerra: os aviões semi-ocultos pelo nevoeiro, pacientemente à espera dos seus pilotos; Vozes ressoantes e o seu eco; Um grito súbito e o bater incongruente dos saltos dos sapatos de uma mulher no chão de pedra; O roncar do motor de um avião que parecia estar ali mesmo, a dois passos. Por toda parte, reinava aquele ar de conspiração que se gera entre pessoas levantadas desde a madrugada; Aquele ar de quase superioridade resultante da experiência comum de terem visto desaparecer a noite e nascer a manhã. O pessoal do aeroporto parecia contagiado pelo mistério da alvorada e pelo frio e tratava os passageiros e a bagagem com a atitude distante de homens em volta da frente de combate; Naquela manhã os simples mortais não lhes suscitavam o mínimo interesse."

Livro de trama surpreendente e trechos extremamente poéticos, na minha opinião obra mais completa de John Le Carré.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Mágoa


Seguram as ondas nas mãos

Deitam os pés na canção corrente
Da maré inerte

Sorriem as algas que vestem

Inundam os olhos que faltam

Levam saudades sobre o quase esquecimento

Entregam-se aos penares do vento

As rosas presentes de seus desalentos

Os erguem do fundo à magnitude

Cantai! Oh, afogados cheios de oceanos

O pranto esquecido dos anos

(Randi Maldonado)


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Retrato em Luar


Meus olhos ficam neste parque,
minhas mãos no musgo dos muros,
para o que um dia vier buscar-me,
entre pensamentos futuros.


Não quero pronunciar teu nome,
que a voz é o apelido do vento,
e os graus da esfera me consomem
toda, no mais simples momento.


São mais duráveis a hera, as malvas,
que a minha face deste instante.
Mas posso deixá-la em palavras,
gravada num tempo constante.


Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às árvores:
solitária, perfeita e pura.


Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.


(Cecília Meireles)


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