quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Acrobata da Dor


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.


(J. Cruz e Sousa)

Talvez


Talvez na noite inquieta o teu passo sereno
A tua voz chegada do princípio de tudo
As tuas mãos erguidas num aceno
Os teus lábios de quem vai beijar o mundo.

Talvez na manhã clara o teu corpo de fogo
Os teus cabelos leque de todas as cores
Os teus dedos correndo as ruas do meu corpo
O teu odor a mar por onde quer que fores.

Talvez somente a luz do teu olhar
O sol que deixas sempre em teu lugar.


(Torquato da Luz)

Eu Escrevi um Poema Triste


Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

(Mario Quintana)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Primeiro Ano


Neste córrego onde escorregam os sapos
E misteriosamente as libélulas zunem
Ilumina-se à margem pelos vaga-lumes
Um coração de pedra e de musgo

Melancolicamente ele bate
Cúmplice da melodia aquática
Que por úmidas eras canta
E consola o coração sombrio

A chuva cai aos poucos
Nas arvores que são velhas
Prateadas senhoras de cabelos escuros

Monotonamente a chuva escorre
Pelas raízes de desenho vario
E vão lavar o coração de musgo
E sua triste melancolia

Coração de musgo e pedra
Liso e escorregadio
Por quem melancolicamente bate
À margem deste córrego frio
Onde a saparia escorrega e canta
E as libélulas misteriosamente zunem
Sob a melodia eterna dos rios?

(Randi Maldonado)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Poema Só Para Jaime Ovalle


Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(Manuel Bandeira)

Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome 
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

(Sophia de Mello Breyner)